Quando Steven
Spielberg anunciou que faria mais um filme sobre extraterrestres, todos ficaram
alvoroçados, principalmente os ufólogos que, tendo como referência
absoluta Contatos Imediatos de Terceiro Grau, esperavam um filme no
mesmo estilo. Porém, vamos aos fatos: Contatos Imediatos de Terceiro Grau foi
baseado nos estudos de dois dos maiores ufólogos da época, Josef Allen Hynek e
Jacques Vallée. Por maior que seja a curiosidade de Spielberg em torno do
assunto, ele não é ufólogo, não está nas trincheiras, não conhece o âmago da
ufologia – e isso explica, em parte, por que muitos ufólogos não gostaram do
filme.
Emily Blunt como Margareth Fairchild
O que Spielberg fez
em O Dia D foi pegar o momento mais delicado da ufologia – o
Desacobertamento – e transformá-lo num evento apoteótico, feito para preparar a
população para a grande revelação sobre a vida extraterrestre. O filme não foi
feito para nós, ufólogos; tanto que não há nenhum ufólogo na trama. Os
protagonistas são pessoas comuns, jogadas no meio de uma situação
extraordinária, que precisam lidar com isso da melhor forma possível –
exatamente o tipo de pessoa comum que o filme quis alcançar, para que
entendesse que, em breve, uma nova realidade faria parte de nossas vidas.
| Josh O'Connor como Daniel Kellner |
Spielberg é um
otimista e imprime em seu filme essa visão romântica, pegando os elementos mais
bonitos da ufologia e construindo um grande conto de fadas. A cena em que a
personagem principal relembra sua abdução na infância é a prova mais absoluta
disso. Ao retirar todos os elementos que tornam uma abdução o terror que ela é,
ele transforma toda a experiência numa chave que conecta a Humanidade a um ser
superior. A menina não vê nada de horrível: vê borboletas, animaizinhos
fofinhos, uma casa encantada – porque, na percepção de Spielberg, essa verdade
vai salvar a todos nós. Não é à toa que o filme se passa durante uma
pré-Terceira Guerra Mundial, quando os países estão prestes a lançar bombas
nucleares uns contra os outros, e só a grande revelação da vida extraterrestre
é capaz de interromper toda a animosidade e, finalmente, unir os seres humanos
numa consciência única.
Eu mesma também acredito nisso e, talvez por isso, ao ver aquela cena catártica da revelação no final do filme, tenha me emocionado tanto. A esperança de acreditar que um dia a Humanidade deixará suas diferenças para fazer parte de uma comunidade cósmica me fez chorar muito. Ver todas aquelas pessoas finalmente vendo a realidade, aceitando-a juntas, me fez relembrar de toda a jornada ufológica até aqui. Lembrei de todos os ufólogos que vieram antes de mim, que já se foram e que dedicaram parte de suas vidas para mostrar essa realidade ao mundo, enfrentando humilhações, descaso, prejuízos e perdas em todos os aspectos. Imaginei o quanto eles teriam gostado de estar vivos para ver algo assim acontecer na vida real, para ter a sensação de missão cumprida, de libertação. Pensei em mim mesma e chorei, porque talvez eu também não veja a revelação final. Como outros, construo um caminho para a posteridade, para que no futuro as pessoas olhem para trás e vejam que os ufólogos que aqui estiveram prepararam o terreno para que esse novo capítulo da Humanidade pudesse acontecer.
Por essas razões, gostei de O Dia D. Mesmo que tenha suavizado muito a questão do acobertamento, das abduções e etc., gostei porque ele dá à ufologia o final feliz que talvez ela não tenha na vida real.
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